MPF aciona Justiça e pede afastamento de coordenador do DSEI-TO por suspeita de perseguição política e assédio moral
Justiça Federal proibiu gestor de intimidar e retaliar trabalhadores, mas ainda vai analisar pedido de afastamento de funções administrativas. Ação também cobra indenização de R$ 500 mil.
O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública contra a União, a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS) e o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena do Tocantins (DSEI-TO), Magayve Xôhxô Krahô, por suspeitas de perseguição política, assédio moral e transferências arbitrárias de trabalhadores da saúde indígena.
A Justiça Federal concedeu parcialmente uma liminar na segunda-feira (26) e determinou que o coordenador não pratique ameaças, intimidações, constrangimentos ou retaliações contra funcionários em razão de posicionamentos políticos, escolhas eleitorais ou participação no Conselho Distrital de Saúde Indígena do Tocantins (CONDISI-TO).
A decisão foi assinada pela juíza federal Carolynne Souza de Macedo Oliveira, da 1ª Vara Federal Cível do Tocantins. O pedido de afastamento do coordenador das funções relacionadas à gestão de pessoal ainda será analisado.
A ação do MPF foi assinada em 14 de outubro de 2026 pelo procurador da República Álvaro Lotufo Manzano. Segundo o órgão, após a posse de Magayve, em abril deste ano, trabalhadores passaram a enfrentar supostas ameaças de demissão, exoneração e transferências compulsórias, especialmente aqueles considerados contrários à orientação política da gestão.
Eleição interna teria provocado retaliações
Um dos principais episódios apresentados pelo MPF envolve a eleição dos representantes dos trabalhadores para o CONDISI-TO, realizada em 17 de junho de 2026.
De acordo com a ação, funcionários teriam sido pressionados a votar na chapa apoiada pelo coordenador, sob ameaça de sofrer consequências caso escolhessem candidatos da oposição.
A votação foi secreta e terminou com a vitória da chapa adversária, liderada pelo enfermeiro Delfino Javaé, por oito votos a sete.
Uma semana depois, em 24 de junho, a trabalhadora Ercilene Barbosa da Cruz, que atuava na Casa de Saúde Indígena (Casai) de Gurupi, recebeu uma comunicação de transferência para o Polo Base de Goiatins, no norte do estado.
Segundo o depoimento apresentado ao MPF, a mudança prejudicaria sua organização familiar, já que a trabalhadora possui uma filha matriculada em escola de Gurupi e mantém vínculos pessoais no município.
Ela também relatou crises de ansiedade, necessidade de acompanhamento psicológico e psiquiátrico e afastamento médico.
Outros profissionais ligados à chapa vencedora também teriam sido transferidos. Para o Ministério Público, as movimentações ocorreram sem justificativas administrativas individualizadas e podem representar represálias pelo resultado da eleição.
Ação menciona profissional de Formoso do Araguaia
Outro caso apresentado na ação envolve a trabalhadora indígena Indinari Idjanaru Santos Javaé, que relatou ter sido transferida de Palmas para Araguaína sem receber explicações prévias sobre a mudança.
Segundo o depoimento, sua função em Palmas teria sido ocupada por uma profissional de Formoso do Araguaia, classificada em quinto lugar no processo seletivo.
A trabalhadora afirmou que, ao procurar o coordenador para questionar o motivo da transferência, teria recebido como resposta que a decisão era política.
O MPF aponta que algumas movimentações de pessoal também teriam ocorrido para atender a indicações de lideranças políticas locais e a divergências com integrantes da administração anterior.
A menção à profissional de Formoso do Araguaia não representa acusação de irregularidade praticada por ela. A suspeita apresentada pelo Ministério Público diz respeito às motivações das decisões administrativas.
Justiça proíbe ameaças e perseguições
Na decisão de segunda-feira (26), a Justiça Federal determinou que o coordenador se abstenha de utilizar suas atribuições para pressionar trabalhadores a apoiar candidaturas, chapas ou posicionamentos político-partidários.
A determinação também proíbe que vantagens, lotações, permanência em funções ou tratamentos administrativos sejam condicionados às preferências políticas dos funcionários.
O gestor também não poderá retaliar trabalhadores, conselheiros ou testemunhas por apresentarem denúncias ou colaborarem com investigações relacionadas ao caso.
Segundo a decisão, os documentos apresentados pelo MPF contêm indícios suficientes para justificar medidas preventivas contra possíveis intimidações. A magistrada ressaltou, no entanto, que os fatos ainda precisam ser apurados e que a decisão não representa reconhecimento definitivo das acusações.
MPF pede afastamento e indenização de R$ 500 mil
Além das medidas já determinadas pela Justiça, o Ministério Público pede o afastamento de Magayve Xôhxô Krahô das decisões relacionadas à gestão de pessoal, incluindo transferências, designações, dispensas e aplicação de penalidades.
O órgão também solicita que ele deixe de participar de decisões relacionadas à composição e ao funcionamento do CONDISI-TO.
A juíza não concedeu o afastamento neste primeiro momento. Segundo a decisão, a medida exige esclarecimentos adicionais sobre as atribuições do coordenador, da AgSUS e de outras autoridades do Ministério da Saúde.
O MPF também solicita a suspensão das transferências realizadas desde março de 2026 e o retorno dos trabalhadores às unidades de origem, ressalvadas as situações em que os profissionais desejem permanecer nos novos locais de trabalho.
Outro pedido é a condenação da União e da AgSUS ao pagamento de R$ 500 mil por danos morais coletivos, além de indenizações individuais aos trabalhadores que eventualmente tenham sofrido prejuízos.
O Ministério Público requer ainda a implantação de medidas de prevenção e enfrentamento ao assédio moral e à violência no ambiente de trabalho, incluindo um canal independente de denúncias e mecanismos de proteção contra represálias.
Atendimento à saúde indígena pode ter sido prejudicado
Na ação, o MPF argumenta que as transferências sem justificativas adequadas podem comprometer a continuidade dos serviços de saúde oferecidos às comunidades indígenas do Tocantins.
Segundo o órgão, a retirada de profissionais de suas unidades pode interromper vínculos construídos ao longo dos anos entre trabalhadores e comunidades atendidas, além de afetar o acompanhamento dos pacientes.
O Ministério Público sustenta que os episódios também teriam provocado sofrimento psicológico entre os funcionários, com relatos de ansiedade, estresse ocupacional e afastamentos médicos.
Caso segue na Justiça
A União, a AgSUS e o coordenador foram chamados a apresentar defesa e esclarecimentos sobre as denúncias.
Após as manifestações, a Justiça Federal deverá voltar a analisar os pedidos que continuam pendentes, incluindo o afastamento do gestor de funções administrativas, a revisão das transferências e a adoção de mecanismos adicionais de proteção aos trabalhadores.
A decisão liminar não determina a saída de Magayve do cargo de coordenador do DSEI-TO nem representa condenação pelas acusações apresentadas.
O Portal Formoso Alerta não obteve manifestação própria do coordenador, da União ou da AgSUS sobre os fatos relatados. O espaço permanece aberto para esclarecimentos e apresentação das respectivas versões.
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