Crise no agro leva produtor a perder fazenda avaliada em R$ 9,6 milhões no sul do Tocantins
Propriedade de 435 hectares fica em Peixe e passou para uma instituição financeira após dívida não ser quitada; inadimplência rural chegou a R$ 48 bilhões no país
A crise de endividamento que atinge o agronegócio brasileiro já tem reflexos no sul do Tocantins. Um pecuarista perdeu uma fazenda de 435 hectares localizada no município de Peixe, após não conseguir quitar empréstimos contratados junto a uma instituição financeira.
A propriedade, identificada como Fazenda Santo Antônio, está avaliada em aproximadamente R$ 9,6 milhões e passou definitivamente para o banco após o não pagamento da dívida.
O caso foi revelado em reportagem publicada neste domingo (13) pelo UOL, que mostrou como o avanço da inadimplência rural está fazendo instituições financeiras assumirem propriedades oferecidas como garantia por produtores.
Segundo a reportagem, o pecuarista já utilizava crédito para financiar a atividade rural. Em 2018, contratou cerca de R$ 618 mil junto ao Banco do Brasil e hipotecou a propriedade. O financiamento foi quitado em 2021.
Entre 2021 e 2022, o produtor conseguiu aproximadamente R$ 9,5 milhões em crédito junto ao Santander. Posteriormente, enfrentou dificuldades para cumprir as obrigações financeiras e precisou renegociar a dívida.
Em 2025, a garantia foi alterada para o modelo de alienação fiduciária. Nesse tipo de operação, o imóvel permanece vinculado à instituição financeira como garantia e pode ser transferido definitivamente ao credor caso a dívida não seja paga.
Em 2026, diante do não pagamento, a instituição financeira assumiu a propriedade. O Santander informou à reportagem original que não comenta casos específicos de clientes e afirmou que avalia alternativas de renegociação quando solicitado, considerando as condições de cada operação.
Inadimplência rural chega a R$ 48 bilhões
O caso registrado em Peixe faz parte de um cenário maior enfrentado pelo agronegócio brasileiro. Dados do sistema de informações de crédito do Banco Central levantados pelo UOL mostram que a inadimplência rural chegou a R$ 48 bilhões em junho de 2026.
Há cinco anos, o valor estava próximo de R$ 2 bilhões. No mesmo período, a taxa de inadimplência passou de 0,54% para 5,63%.
Dos R$ 48 bilhões atualmente inadimplentes, cerca de R$ 29 bilhões estão concentrados entre produtores rurais de alta renda.
O levantamento também aponta mais de R$ 72 bilhões em operações consideradas problemáticas, classificação utilizada para créditos com risco elevado de não pagamento.
Crise afeta economia de Peixe
Os reflexos não estão restritos às propriedades endividadas. Em Peixe, município cuja economia possui forte dependência do agronegócio, comerciantes e empresas ligadas ao setor também sentem os efeitos da redução da capacidade de investimento dos produtores.
A crise chegou a afetar a programação agropecuária local. Segundo relato do organizador ouvido pela reportagem, a feira agropecuária de Peixe em 2026 foi cancelada diante das dificuldades enfrentadas pelos produtores e da preocupação de empresas do setor com a redução dos negócios.
Entre os fatores apontados para o aumento do endividamento estão a queda no preço de algumas commodities agrícolas após o período de valorização, aumento dos custos de produção, juros elevados, eventos climáticos e maior dificuldade para obtenção de novos financiamentos.
Bancos aumentam exigências para crédito rural
Com o crescimento da inadimplência, instituições financeiras passaram a reforçar as garantias exigidas para liberar novos empréstimos ao setor rural.
Uma das mudanças é justamente o avanço da alienação fiduciária de imóveis rurais. Quando a dívida não é paga nas condições estabelecidas, esse modelo facilita a transferência definitiva da propriedade utilizada como garantia ao credor.
O cenário preocupa produtores e empresas que dependem diretamente da atividade rural, especialmente em municípios do interior do Tocantins onde o agronegócio representa parcela importante da geração de renda, empregos e movimentação do comércio.
